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Um roteiro sobre Direitos Humanos em Santiago

É difícil visitar o Chile e não deparar com a memória social da ditadura militar que teve início em 1973 no país, a começar pelo Palácio La Moneda, sede da Presidência da República do Chile e um dos principais pontos turísticos de Santiago, que foi alvo de bombardeio em 11 de setembro de 1973, liderado pelo então comandante do Exército chileno, Augusto Pinochet. Era, então, deposto o presidente Salvador Allende, Fundador do Partido Socialista do Chile,  que governara o país de 1970 até 1973.

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O Palácio La Moneda fica na Plaza de la Ciudadania, bem no centro de Santiago e acessível pela estação do metrô “La Moneda”. Além de apreciar sua fachada externa, é possível fazer tour guiado pelo interior do Palácio. Eu não cheguei a fazer esse tour, mas no Meus Roteiros de Viagem tem um relato bem detalhado de como realizar esse passeio.

No subsolo da Plaza de la Ciudadania, fica o Centro Cultural Palacio La Moneda, que abriga exposições temporárias e permanentes, além de possuir uma sala para exibição de filmes e um café.

Tal como no Brasil, os anos de ditadura militar chilena foram marcados pela ruptura com o sistema democrático, a dissolução do Congresso Nacional, a suspensão dos partidos políticos, a restrição dos direitos civis e políticos, como a liberdade de expressão e de reunião e, principalmente, pela violação dos direitos humanos.

Tendo como base a ideologia da doutrina da segurança nacional, colocou-se em prática uma política repressiva com o objetivo de sufocar toda potencial ameaça à ordem estabelecida, por meio de prisões, torturas, assassinatos e exílio. Essas ações afetaram milhares de chilenos, entre políticos de esquerda, dirigentes sindicais e simpatizantes do governo Allende.

Além da polícia e das forças armadas, foram criados órgãos específicos para essas finalidades, como a Direção de Inteligência Nacional e a Central Nacional de Informações.

Nas últimas décadas, o Chile conduziu várias investigações sobre as violações de direitos humanos realizadas durante o período da ditadura militar. O relatório da Comissão Valech – a comissão da verdade mais recente conduzida no país, reconhece um total de mais de 40 mil vítimas da ditadura chilena.

A melhor forma de conhecer melhor essa história é visitar o Museu da Memória e dos Direitos Humanos em Santiago. Ele explica, de forma bastante didática e interativa, como se deram as sistemáticas práticas de violação de Direitos Humanos durante a ditadura chilena, além de prestar uma homenagem às vítimas e  a suas famílias. Certamente foi uma das atrações que eu mais gostei na cidade, de todos os países que eu já visitei na América do Sul, não tenho conhecimento de nenhum outro que tenha feito um trabalho tão primoroso de reconstrução e exposição dos horrores dos anos de autocracia. Já adianto que o Museu é grande e com muita informação, então, para valer a pena, reserve umas 3 horas para visitar tudo com calma.

Apesar de um pouco distante do centro, o museu é facilmente acessado pela estação do metrô “Quinta Normal”, ao lado de parque de mesmo nome, que também vale a visita.

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Por acaso, outro lugar que encontramos por acaso um pouco da memória social da ditadura chilena em Santiago foi no bairro Brasil, que originalmente havíamos decidido visitar em razão dos resquícios da arquitetura do início do século passado.

No início do século XX, o bairro Brasil era um bairro de luxo, mas a partir da década de 1940 os moradores ricos começaram a migrar para outros bairros mais valorizados e o bairro Brasil caiu em esquecimento. Em razão disso, a região acabou escapando da exploração imobiliária, o que fez com que muitas das belas mansões em estilo gótico e neoclássico, quase todas do início do século XX, sobrevivam até hoje, ainda que desgastadas pelo tempo. Além disso, a presença de universidades próximas ao bairro propiciou uma vida cultural e artistica intensa na região.

O bairro fica um pouco afastado do centro, mas para quem gosta de caminhar é tranquilo chegar até lá andando (e barato chegar até lá de taxi). O melhor lugar para começar a flanar pelo bairro é a Plaza Brasil, que aos finais de semana tem uma atmosfera bem agradável, com uma feirinha de livros antigos e artesanato, pessoas descansando na grama, gente tocando vilão e crianças brincando.

Foi lá que tivemos a grata surpresa de encontrar entre as barraquinhas da feira uma associação chamada FUNA, que em Espanhol significa algo como “esculacho”. O lema da associação é “Si no hay justicia, hay funa“, o que quer dizer que ” Se não há justiça, há constrangimento público”. Conversamos bastante com um dos líderes do movimento, que nos explicou que o trabalho deles consiste em identificar pessoas que atuaram na violação de direitos humanos na ditadura militar chilena, foram condenados, mas permanecem sem punição até hoje. A partir dessa identificação, a associação divulga a história da pessoa, junto com endereço e foto, e organiza atos de constrangimento público em frente à casa da pessoa condenada, cujo passado na maioria dos casos permanecia desconhecido para a maioria da sociedade.

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A Plaza Brasil também é rodeada por cafés e livrarias vinculadas à esquerda chilena. Experimentamos o Crónica Digital, que tinha cafés e tortas maravilhosas.

cronicadigital

Depois do café, seguimos pela Avenida Brasil, a rua principal do bairro, que é cheia de bares, cafés e restaurantes e parece ser o point da noite.

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E, de lá, fomos explorando as ruas menores, que são cheias de casarões antigos.

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E arte de rua….

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E mais arte de rua.

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Bom, esse é certamente um relato restrito de um universo muito mais amplo de atividades e passeios relacionados aos direitos humanos em Santiago, mas espero ter dado minha contribuição aos apreciadores do tema 😉

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